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22 dez

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O poder redentor da arte em “Lixo Extraordinário” (2009)

18 fev

MARINA MACIEL

Hoje eu fui lá no Cine Belas Artes, o cinema de rua daqui de São Paulo que está para fechar as portas. Queria assistir Malu de Bicicleta (2010), adaptação do livro homônimo do Marcelo Rubens Paiva, mas cheguei lá para descobrir que o filme saiu de cartaz. A segunda opção era ver Lixo Extraordinário (Waste Land – 2009), um documentário sobre um projeto do Vik Muniz no maior aterro sanitário da América Latina, no Jardim Gramacho, que fica na periferia de Duque de Caxias (RJ).

O documentário foi dirigido pela britânica Lucy Walker (Blindsight) e co-dirigido pelos brasileiros João Jardim (Pro Dia Nascer Feliz) e Karen Hardley (Com o oceano inteiro para nadar) entre agosto de 2007 e o maio de 2009. Pra quem não lembra quem é o Vik Muniz, ele é o artista plástico que fez aquelas fotografias da abertura da novela “Passione” da Globo.

Entrei na sala e estava passando o trailer de Dorian Gray (2009), que finalmente vai passar aqui no Brasil. Apesar de já ter assistido, vou ver no cinema de novo com certeza – O Retrato de Dorian Gray do Oscar Wilde era minha paixão de criança.

Voltando ao Lixo Extraordinário. Ele tem muito de Ilha das Flores do Jorge Furtado. É um filme de imersão em uma realidade ignorada, e por vezes até desconhecida. Lembro-me bem que na primeira vez que assisti ao curta Ilha das Flores, quando tinha uns 12 anos, foi como se tivesse levado um soco no estômago; mas depois de vê-lo outras tantas vezes, a sensação de desconforto desapareceu. Lágrimas, relatos entristecedores, sorrisos, abraços, força de vontade, união, determinação, resistência – é um documentário bem dramático. Mas acima de tudo, as personagens de Lixo Extraordinário são muito interessantes.

O enfoque do filme não é o lixo dispensado no Jardim Gramacho, mas o papel da arte de Vik Muniz na vida das pessoas que trabalham no aterro. O que mais me chamou a atenção no filme foi uma discussão entre Vik e sua esposa, balançando os efeitos que a intervenção deles na realidade dos catadores de Gramacho e como seria a vida dessas pessoas uma vez terminado o projeto.

O trailer de Lixo Extraordinário:


As lentes de Muniz capturam menos lixo e mais humanidade. Só o projeto já era uma obra de arte. Sem questionar se o papel do artista ali é mais marketeiro do que transformador (porque essa foi a discussão entre amigos quando deixamos a sala do cinema – mas eu acho que ninguém se dedicaria tanto tempo a um projeto só por uma jogada de marketing para vender mais), a narrativa do documentário tenta mostrar sem didatismo como o contato com a arte pode emocionar e mudar a forma de encarar a vida de quem não tinha contato com ela antes. É uma história com muitos personagens fortes e surpreendentes; são eles e a expectativa de ver a obra concluída que dão um outro tom ao filme.

A trilha sonora impecável do filme é do músico estadunidense Moby, que também teve músicas usadas em filmes como O Amanhã Nunca Morre, A Praia e a trilogia Bourne. Não poderia deixar de ao menos mencionar que, apesar de quase todos os personagens serem brasileiros, o documentário é falado em inglês e português. Por fim, Lixo Extraordinário ganhou vários prêmios e participou de festivais internacionais em 2010, ele também foi indicado ao Oscar 2011 de melhor documentário.

Para lembrar do Vik Muniz, a abertura de “Passione”:

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A paranoia e os egos em “Cisne Negro” (“Black Swan”, 2010)

3 jan

Natalie Portman (Closer – Perto Demais) vive Nina Sayers, uma bailarina esforçada de uma companhia de dança de Nova Iorque, que está preparando uma apresentação de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Emocionalmente frágil, Nina é a perfeita aproximação do Cisne Branco, uma mulher transformada em cisne que se apaixona por um príncipe. Porém, para interpretar a Rainha Cisne, ela precisa também ter uma performance impecável como Cisne Negro, a gêmea malvada que seduz o príncipe, e ela não está emocionalmente preparada para o papel.

Cisne Negro é um filme de arte dirigido por Darren Aronofsky (Requiem for a Dream). Como já esperava do Aronofsky, realidade e ilusão se misturam nos 108 minutos do longa. Quem assiste ao filme nunca tem certeza se o que viu foi uma alucinação de Nina ou não, já que fomos imersos no inconsciente da bailarina desde a primeira cena.

O diretor artístico da companhia, Thomas Leroy (Vincent Cassel), tenta despertar o lado sombrio de Nina para uma interpretação mais próxima de Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina que seria perfeita para o papel de Cisne Negro por sua espontaneidade. Enquanto tenta agradar Thomas, Nina desenvolve uma mistura de amizade com rivalidade por Lily, que seria uma possível ameaça a seu papel como Rainha Cisne no espetáculo.

Ao passo que Nina vai criando barreiras para ela mesma para conseguir dançar como o Cisne Negro, sua mãe Erica (Barbara Hershey), uma frustrada ex-bailarina, a sufoca para que a filha seja tudo aquilo que ela desejava ser antes de ter a carreira interrompida. Autoritária e imponente, ela é a personificação da Rainha Cisne.

Winona Ryder faz algumas rápidas aparições como Beth MacIntyrea, a estrela anterior da companhia de dança. Considerada velha demais para continuar a dançar, Beth é forçada a se aposentar como bailarina. Winona tem uma pitada da personagem de Gloria Swanson no filme Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard), dirigido por Billy Wilder. Outra semelhança que vi é com Garota, Interrompida (Girl, Interrupted), do diretor James Magnold, principalmente pela inocência e pureza de Nina e a sensualidade e rebeldia de Lily.

Apesar das sequências de dança não serem memoráveis, as cenas finais do filme são. A apresentação da noite de estreia de O Lago dos Cisnes é perturbadora, mórbida e visualmente atraente.

  • O trailer oficial de Cisne Negro:

Notas: O filme deve estrear no Brasil no dia 2 de fevereiro.

Cisne Negro concorre ao Oscar de melhor filme, melhor diretor (Darren Aronofsky), melhor atriz (Natalie Portman) e melhor atriz coadjuvante (Mila Kunis).

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“Catfish” (2010) e a identidade na era digital

26 nov

MARINA MACIEL

Esbarrei hoje em um post de um documentário que achei que precisava ver. Tanto por ter adorado o nome da produtora (Supermarché) quanto por ter achado que, como alguém com amigos da internet, devia dar uma olhada e comparar experiências.

Quem foi no cinema recentemente deve ter visto que em dezembro estreia o filme A Rede Social (The Social Network), do David Fincher, que vai contar a história do Facebook. É uma produção cinematográfica baseada em fatos reais. Catfish ainda não foi lançado no Brasil, mas também fala do Facebook – só que, ao invés de falar do criador, mostra os usuários. O trailer diz que não é baseado em fatos reais, nem em eventos. Diz que é “apenas verdade”.

Veja o trailer de Catfish:

Ceticismo à parte sobre o que é admitido como a verdade neste caso, Catfish foi dirigido por Ariel Schulman e Henry Joost, dois amigos que resolveram documentar a amizade virtual do fotógrafo Nev (Yaniv) Schulman, de 24 anos, com Abby Pierce, uma menina pintora de 8 anos que ele conheceu na internet.

Nev se envolve com a família de Abby – a mãe Angela e a irmã Megan, por quem ele tem uma atração. Quando ele resolve sair de Nova York e fazer uma visita inesperada à casa delas em Michigan, porém, Nev descobre que a família Pierce real pouco tinha a ver com a virtual.

Além de mostrar o relacionamento entre internautas, o documentário aborda a questão da identidade na internet, de como é fácil fingir ser alguém que não é, foi um dia ou gostaria de ser, a intimidade entre estranhos nas redes sociais e, até certo ponto, a ingenuidade de Nev.

Se é realmente um documentário ou uma produção pré-arranjada, é discutível. Mas Catfish é provocativo e levanta questões que deveriam ser mais discutidas e menos espetacularizadas.

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Literatura naturalista tem sangue

11 out

MARINA MACIEL
A filosofia positivista fez grande sucesso até a década de 1930. Necessariamente, a velha ordem teria que terminar com a República e com o fim da escravatura. Havia uma opção imigracionista, que quer buscar todos os arianos, de preferência, para embranquiçar o país. Era essa a filosofia da época: racista. Acreditava-se que o país que se baseava em raças “inferiores” não iria para frente; a “ordem e progresso” seriam barradas com os escravos. A ideia de que lugares quentes amoleciam a inteligência também existia – e essa condição era piorada pela raça.

A Escola do Recife, desde 1870, passara a criticar o que eles chamavam de “filosofia eclética” e a divulgar ideias antiromânticas, espiritualistas e religiosas. Veio uma leva de escritores pessimistas, mesmo tendo vários momentos históricos que mostram que suas teorias estão erradas. Em 1881, Aluísio Azevedo publicou O Mulato, considerado o livro que inaugurou a corrente naturalista no país. Quatro anos depois, ele publica o melhor romance naturalista do Brasil: O Cortiço. É um livro que chama a atenção para aspectos orgânicos e físicos: são machos e fêmeas à solta. Aluísio achava que essa era a “verdadeira literatura”.

O escritor Gustave Flaubert "dissecando" Madame Bovary. Caricatura feita por A. Lemot, publicada em dezembro de 1869.

Quantos objetos e acontecimentos têm na realidade? Ele preenche o espaço do texto, vai tapando com vários elementos. Mas não há nenhuma elevação ou preocupação de produzir algo sublime: ficamos no baixo.

Por que o naturalismo vive voltando? Com Rubem Fonseca, por exemplo, o seu romance brutalista retoma o Naturalismo, mas tem uma diferença: ele não quer apresentar tese alguma. O narrador não toma partido, mas apresenta a mais horrenda violência, tematiza comida, sexo… Tudo fica no mesmo nível. Só essa sujeira consegue reproduzir o horror da realidade atual, quando isso representa a realidade atual.

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Arte Coletiva – Ikebana!

3 out

MARINA MACIEL

Já não é mais incomum encontrar uma obra de arte produzida coletivamente por vários artistas, principalmente quando o meio é a Internet – um dos sites mais conhecidos que reúne esse tipo de produção artística é o deviantART. Fora do mundo virtual, porém, também é possível encontrar arte coletiva. Algumas estações da CPTM (Companhia de Trens Metropolitanos) de São Paulo, como Brás, Cidade Jardim e Pref. Celso Daniel,  receberam a exposição Arte Coletiva de ikebana, em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil.

O ikebana é a arte milenar japonesa de arranjo de flores. Entretanto, como se trata de uma “arte coletiva”, não é apenas o arranjo pronto que compõe a obra. Assim que o arranjo floral estiver pronto, dele é tirada uma fotografia com câmera digital; da fotografia, é feita uma aquarela, que também é fotografada; finalmente, a foto é editada pelo computador.

Como ilustra a imagem abaixo, o uso das cores do resultado final foi inspirado nas obras do pintor japonês Ogata Korin (1658 – 1716), que influenciou o movimento impressionista europeu no século XIX. Além disso, a obra engloba a tecnologia de ponta da fotografia digital e da edição pelo computador. Característica pós-moderna, ocorre um deslocamento de um estilo do passado para o presente, uma desvinculação sem contextualização. Há uma fratura entre o estilo passado e o contemporâneo.

Produto final da arte coletiva de ikebana exposto pela CPTM.

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O curta de Sean Penn em “11’9”01 September 11″ (2002)

11 set

MARINA MACIEL

11’9″01 September 11 foi filmado no ano seguinte ao atentado às Torres Gêmeas. Onze cineastas foram convidados a dirigir um episódio de 11 minutos, 9 segundos e 1 quadro (alusão ao dia dos ataques, 11/09/01). Entre os diretores convidados, estava o ativista político de Hollywood Sean Penn (Oscar 2009 de melhor-ator em Milk – A voz da igualdade). O curta que ele dirigiu é uma grande metáfora do American Way of Life.

A única personagem do curta é um homem idoso, que vive em um apartamento escuro, sujo e velho como ele. Assim como a música do filme tem a intenção de provocar melancolia e solidão, o homem fala sozinho o dia todo, coloca sobre a cama roupas que escolheu para a falecida esposa vestir. A falecida esposa do homem representa a pátria, e ela está morta.

A escolha do ator foi inusitada: Ernest Borgnine foi vilão em muitos filmes entre os anos 1950 e 1960, teve papéis de cowboys e militares (ele mesmo foi da Marinha norte-americana por dez anos e participou da Segunda Guerra Mundial) carrancudos. Neste curta, entretanto, ele representou um velhinho carismático.

A fotografia do filme mostra em close todos os objetos velhos e ultrapassados na casa do personagem: relógio, gilete (e uma caixa com giletes usadas), óculos (que o personagem não usa, apesar de precisar)… Em alguns momentos, a câmera perde o foco. O alarme toca para avisar o que está por vir, mas o velhinho não presta atenção. A personagem não quer enxergar, não quer ouvir. Não é só ele, no entanto, que não está prestando atenção ao que está acontecendo: na TV é transmitido um programa que tenta descobrir se alguém é gay ou não – do ponto de vista do interesse público, irrelevante.

Com a queda das Torres, o apartamento, enfim, se ilumina, e as flores mortas pela falta de luz renascem. Sean Penn, apesar de construir seu país de uma forma dura, deixa uma esperança, sugere uma possibilidade de fazer diferente. O curta deixa no ar a moral de que sempre dá mudar. A América morta não existe mais, mas dá para fazer diferente, ela renasce – como as flores do vaso.

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"Crash – No Limite" (2004), uma análise crítica

15 ago

MARINA MACIEL

Um dos equívocos que se escutava nas salas de cinema quando o filme estreou no Brasil era que o longa-metragem retrata “uma realidade norte-americana”. As tensões raciais não afligem apenas os Estados Unidos, tão pouco se resumem à dicotomia branco/negro. O Brasil é, inclusive, um país cuja característica marcante é a mistura étnica.

O senso comum diz que o preconceito no Brasil é velado, ou seja, que ele não é direto e violento. Nas escolas, crianças são educadas a dizer “negros” ou “afrodescendentes”, mas nunca “pretos”. No espaço público, as pessoas tendem a se distanciar de um negro e preferir a companhia de um branco por lhe representar menos ameaça – associa-se o negro e o mulato à criminalidade, ao roubo, ao assassinato, ao tráfico. A discriminação racial, por classe social e por deficiência física, por exemplo, são proibidas por lei, mas nos edifícios existem elevadores sociais e de serviços. As estruturas dentro da sociedade reforçam a exclusão.

Crash - No Limite

“Crash – No Limite” mostra a intolerância racial de forma velada e descarada, mas não condena ou vitimiza as personagens. O longa-metragem anula o maniqueísmo bom/mau nas diversas situações da trama a que são submetidas as personagens ao realizarem ações condenáveis ao senso comum, mas os “redime” em seguida ao mostrar situações em que essas mesmas pessoas agem de forma, segundo a moral, positiva. A trama apresenta as personagens como seres humanos, por sua natureza contraditórios: o “bem” e o “mal”, sob a ótica da moral das sociedades ocidentais, convivendo em um mesmo indivíduo.

Tomemos como exemplo o policial, que era gentil e carinhoso com o pai, mas ao mesmo tempo era racista. Ele se envolve em uma cena de “redenção” mais adiante do filme, quando reencontra uma cidadã negra que havia molestado previamente e salva a vida dela. Ou ainda, a esposa do coreano atropelado que lucra com o tráfico de escravos tailandeses enquanto é amorosa com o marido; a mulher rica que maltrata seus empregados, mas também tem sua cena de redenção mais adiante ao abraçar a empregada hispânica e confidenciar a ela que era sua única amiga.

O diferente durante todo o filme é encarado com receio ou descaso, seja a família de iranianos, o coreano atropelado ou a detetive de El Salvador. A cena final do filme é, nesse sentido, interessante: ela recupera a libertação dos escravos negros ao construir uma situação em que um ladrão de automóveis negro liberta escravos tailandeses em Chinatown, um bairro chinês de Los Angeles, e entrega uma pequena quantia de dinheiro para que eles sobrevivam sozinhos. Dadas as condições, é provável que a situação negra se repita para esses tailandeses: alheios àquela realidade, esses ex-escravos não terão condições de se inserir na sociedade, sem trabalho, sem moradia, sem conhecimento da cultura local. São pessoas que serão excluídas do sistema, que viverão na marginalidade.

“Children see. Children do.” (“As crianças veem. As crianças fazem.”) – comercial da NACPAN (National Association for Prevention of Child Abuse and Neglect):

É o sentido do tato. Em toda a cidade grande que você anda, você sabe. Você roça nas pessoas, as pessoas esbarram em você. Em LA, ninguém toca você. Estamos sempre por trás de metal e vidro… É o sentido do tato. Eu acho que nós sentimos tanto a falta desse toque, que colidimos (crash) uns nos outros para que possamos sentir alguma coisa.
Detetive Graham Waters, interpretado por Don Cheadle.

A trama gira em torno de vários personagens paralelamente, que se relacionam de alguma forma em um espaço de 36 horas na cidade de Los Angeles. As histórias se entrelaçam, aludindo à teoria dos Seis Graus de Separação – em até seis conexões, uma pessoa pode se ligar a qualquer outra no mundo.

“Crash” recebeu, em 2006, três Oscars dos seis que foi indicado: melhor filme, melhor edição e melhor roteiro original.

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ABBA The Show na Virada Cultural 2010

16 mai

MARINA MACIEL

16mai_abba

Três horas da tarde, sol encoberto por nuvens, um calor fora de propósito, o cheiro de mijo característico do centro da cidade de São Paulo e uma turba amontoada em frente ao palco na Praça Júlio Prestes montavam o cenário da apresentação do cover do ABBA na Virada Cultural. Era tanta gente amontoada que nem fazendo pacto com o Diabo para conseguir se aproximar do palco. Ainda bem que não era um show típico de bate-cabeça. Muitas das pessoas que estavam ali não sabiam que se tratava da apresentação de um cover, e o boca-a-boca confirmava a falsa afirmação de que era a banda original sueca que estava tocando.

O figurino também ajudou na aproximação do espetáculo do ABBA dos anos 1970. Um dos artistas usou um macacão branco que não deixava muito para a imaginação e exibia seu tórax depilado, além do corte de cabelo que se assemelhava a uma peruca loira fora de lugar.

Alguns artistas da banda de apoio do ABBA original estavam lá. O primeiro a ser apresentado foi o saxofonista Ulf Andersson. Algumas poucas músicas depois e foi a vez do baterista Roger Palm ser aplaudido.

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Tirando as clássicas que aparecem no musical “Mamma Mia!” e em festas de casamento, a única canção que a plateia não pareceu reconhecer foi “Suzy-Hang-Around”, do álbum Waterloo (1974). Nessa performance, o tecladista se juntou ao artista do macacão branco e explicou porque estava sorrindo tanto: “That’s the only song I get to leave the piano”.

A vocalista loira dedicou a todas as crianças do mundo “I Have a Dream” e ainda pediu que o público cantasse sozinho – não foi uma das ideias mais felizes. “Fernando” deixou mais evidente que, tirando o refrão, as letras das músicas eram um mistério para a maioria dos presentes.

“So Long” foi a despedida que não se concretizou, visto que a plateia clamou por “Dancing Queen”. Por fim, o tecladista anunciou “Thank You For The Music” como o encerramento definitivo do show e até usou algumas palavras ensaiadas em português: “O que temos a dizer ao ABBA: ‘Obrigado pela música’.”

Vídeo: O único que encontrei até agora com boa qualidade de som e imagem é o da Folha Online, apesar de aparentar ter menos pessoas do que realmente tinha.

Na plateia

O site do G1 divulgou que pessoas de meia-idade disputavam lugar com os jovens. Mais do que verdade. Fiquei rodeada por um grupo das mais amarguradas senhoras, que além de reclamar de Deus e do mundo (e da altura dos mais novos à frente delas), repreendiam os jovens: “Nem sei porque eles estão aqui, ABBA nem é do tempo deles”, como se isso as deixassem com algum tipo de privilégio e tirasse o direito de estar ali dos demais. Quando queriam mais espaço, elas se acotovelavam entre si e quem estava em volta também levava empurrão, uma das cenas mais ridículas que já vi.

ABBA The Show no Brasil

O show não foi exclusivo para a Virada Cultural de São Paulo. O tour no Brasil começou na quinta-feira (13), em Goiânia no Sol Music Hall, e foi para o Chevrolet Hall na sexta (14) em BH e no sábado (15) em Recife antes de vir para São Paulo. Eles voltam a tocar na quarta-feira (19) em Foz do Iguaçu, no dia 20 em Brasília, no Rio na sexta-feira (21), o sábado (22) em Porto Alegre e encerram as apresentações no país em Curitiba no domingo (23).

No primeiro dia do tour do ABBA The Show no Brasil, na quinta-feira (13), o organizador do ABBA The Show em Goiânia foi preso por propaganda enganosa por divulgar a banda cover como o grupo original.

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Leituras Vampirescas X Modinha

12 mai

MARINA MACIEL

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A febre de vampiros desencadeada por Twilight me deixou com um pé atrás – quem não ficaria? Afinal, se antes de Stephenie Meyer lançar seu primeiro livro em 2005 poucas histórias eram realmente envolventes, depois que fãs descontrolados de Crepúsculo substituíram em parte o mercado dos loucos por Harry Potter (R.I.P.) (porque a maioria dos fãs dos Cullen, de de Bella Swan e de Jacob são do sexo feminino), nós, os consumidores de ficção fantástica, fomos bombardeados com trocentas novas histórias de vampiros elevadas à enézima potência, as quais poucas são realmente criativas e de qualidade.

Quando saber que o que você está lendo é mais lixo cultural pegando carona nas febres passageiras para vender mais? Quando saber que o que muda é o conteúdo e não só a capa?

Lembra-se de quando HP começou a fazer sucesso? Muitos escritores resolveram se aproveitar do sucesso da história da J.K. Rowling (sem entrar no mérito de julgamento certo/errado) e lançaram seus próprios livros de aprendizes de bruxaria. Agora a pergunta: quantas dessas produções você se lembra?

De tantos romances de vampiros, conto nos dedos quantos que li que são bons e que me lembro dos títulos/autores. Muitos não passei da sinopse, é verdade. Ela conta muito nesse caso – impossível não se enfurecer minimamente quando você perde seu tempo lendo e percebe que a história é um ctrl+c + ctrl+v de outra. É como se o autor estivesse te chamando de idiota. Então, se a trama já te parece familiar, dê uma olhadinha na data de publicação – se sua suspeita se confirmar, o jeito é fugir do livro como vampiro foje do Sol¹.

¹ Seja para não virar cinzas ou para não ter glitter natural no corpo.

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